Como abrir um food truck: o guia completo, do trailer ao TPU
Food truck tem fama de ser o jeito barato de entrar no ramo de alimentação: sem aluguel de ponto, sem reforma de salão, a cozinha vai aonde o cliente está. A fama é meio verdadeira. O que quase ninguém conta é que o food truck troca o aluguel por uma burocracia que os restaurantes não têm: permissão da prefeitura para ocupar a rua, veículo regularizado no DETRAN e vistoria sanitária dentro de um espaço de poucos metros quadrados.
Este guia percorre o caminho inteiro com fontes oficiais: quanto custa cada formato (de trailer usado a caminhão adaptado), qual CNAE usar, como caber no MEI pagando R$ 82 por mês de imposto, o que a lei de comida de rua exige, como regularizar o veículo e a conta honesta de quanto sobra. No fim, o passo a passo completo.
O mercado: quanto rende um food truck
O mercado global de food trucks movimentou US$ 4,15 bilhões em 2024 e deve chegar a US$ 6,87 bilhões em 2029, segundo levantamento citado pela Abrasel. No Brasil não existe um censo oficial atualizado de quantos trucks rodam (e desconfie de quem cravar um número), mas existe algo mais útil: quanto fatura cada modelo de operação, segundo levantamento do setor atualizado em junho de 2026 pela Sisfood:
| Modelo de operação | Faturamento mensal | Lucro líquido típico |
|---|---|---|
| Só eventos (15 a 25 por mês) | R$ 15 mil a R$ 30 mil | R$ 3 mil a R$ 7 mil |
| Ponto fixo regularizado | R$ 30 mil a R$ 50 mil | R$ 6 mil a R$ 12 mil |
| Food park consolidado | R$ 40 mil a R$ 80 mil | R$ 8 mil a R$ 18 mil |
O tíquete médio fica entre R$ 20 e R$ 50 por cliente, e a ficha oficial do Sebrae usa R$ 30 mil mensais como referência de faturamento. Repare no padrão da tabela: quem vive só de evento fatura menos e depende de agenda; quem consegue ponto fixo ou vaga num food park dobra o jogo. A escolha do modelo de operação importa mais que a receita do hambúrguer.
Quanto custa abrir um food truck
A ficha do Sebrae estima R$ 150 mil para começar com veículo novo: R$ 67 mil do veículo, R$ 40 mil de adaptação, R$ 8 mil de utensílios, R$ 3 mil de informática, R$ 2 mil de registro, mais R$ 30 mil somando capital de giro e estoque para dois meses. É o cenário confortável. O mercado real tem uma escada bem mais longa, com faixas levantadas em 2024 a 2026 (Goomer e Sisfood):
| Formato | Investimento típico | Observação |
|---|---|---|
| Trailer rebocável usado | R$ 15 mil a R$ 45 mil | Anúncios reais de trailers equipados ficam na faixa de R$ 22 mil a R$ 45 mil; precisa de carro para rebocar |
| Van ou Kombi adaptada (básico) | R$ 60 mil a R$ 90 mil | O formato de entrada motorizado |
| Caminhão dedicado (intermediário) | R$ 90 mil a R$ 140 mil | Vans e caminhões usados custam R$ 60 mil a R$ 130 mil antes da reforma |
| Operação premium / veículo novo | R$ 140 mil a R$ 200 mil | O cenário da ficha do Sebrae |
Nos equipamentos embarcados, as faixas de mercado: chapa profissional de R$ 1.500 a R$ 3.500, fritadeira comercial de R$ 1.200 a R$ 2.800, e o bloco completo (refrigeração, coifa, bancadas) entre R$ 10 mil e R$ 30 mil. Um item que pega muita gente de surpresa: o gerador. Um modelo silencioso de 8 kVA, obrigatório em evento que não fornece energia, custa na casa de R$ 6.400 (preço real de loja em julho de 2026), e o combustível dele sai por R$ 300 a R$ 600 por evento.
Some os custos do modelo de eventos: organizadores cobram taxa fixa (na referência histórica de Curitiba, cerca de R$ 1.000 por dia de feirinha) ou um percentual que chega a 20% do faturamento. É a versão food truck do aluguel: você não paga o ponto, paga a agenda.
CNAE de food truck: qual código usar
O código oficial é o CNAE 5612-1/00, Serviços ambulantes de alimentação. O descritor da classificação do IBGE cita expressamente o fornecimento de comida preparada em “trailers, carrocinhas e outros veículos de alimentação rápida destinados ao consumo imediato”. Se o truck também fizer entrega, vale adicionar como atividade secundária o 5620-1/04 (fornecimento de alimentos preparados para consumo domiciliar), o mesmo código do delivery puro.
Food truck pode ser MEI? Pode, por R$ 82 por mês
Não existe ocupação chamada “food truck” na lista do MEI, mas o CNAE 5612-1/00 está lá, verificado na lista oficial de ocupações (Anexo XI da Resolução CGSN 140/2018). A ocupação que cobre a operação típica é vendedor(a) ambulante de produtos alimentícios independente; churrasqueiro ambulante e sorveteiro ambulante também existem para operações específicas. Todas recolhem só ICMS (tratamento de comércio), então o DAS de 2026 fica em R$ 82,05 por mês, com o salário mínimo de R$ 1.621, conforme a Agência Brasil.
Os limites são os de sempre: R$ 81 mil de faturamento por ano (o teto sobe para R$ 110 mil em 2027) e no máximo 1 empregado. Faça a conta com o tíquete da tabela lá de cima: R$ 81 mil por ano dá R$ 6.750 por mês, ou seja, uns 200 pedidos mensais de R$ 33. Um truck que trabalha só fins de semana cabe no MEI com folga; um que emplaca agenda cheia de eventos estoura o teto ainda no primeiro semestre. Quando estourar, o caminho é virar ME no Simples Nacional: alimentação preparada é tratada como comércio (Anexo I, alíquota inicial de 4% sobre o faturamento), o mesmo enquadramento já refletido no tratamento do MEI. Nessa transição, a nossa calculadora de pró-labore ajuda a definir a sua retirada como sócio.
A burocracia que ninguém conta
1. A permissão para ocupar a rua (TPU)
Rua é espaço público, e vender em espaço público exige permissão municipal. O modelo mais conhecido é o de São Paulo, criado pela Lei 15.947/2013 (a “lei da comida de rua”) e regulamentado pelo Decreto 55.085/2014: o TPU (Termo de Permissão de Uso) define o ponto, o horário e até os alimentos aprovados. Ele é oneroso (paga-se por m² ocupado), pessoal, intransferível e revogável a qualquer tempo. As vagas saem por edital de cada subprefeitura, o veículo da categoria A pode ter no máximo 6,30 m por 2,20 m, e há distâncias mínimas a respeitar: 5 m de cruzamentos e pontos de ônibus, 20 m de estações de metrô e hospitais, 25 m de comércio fixo de alimentos.
Cada cidade tem sua versão dessa regra (e muitas são mais simples). Antes de comprar o truck, vá à prefeitura ou à subprefeitura da sua região e pergunte: existe edital aberto? Quantas vagas? Em quais pontos? Food truck sem ponto autorizado vive de evento privado, e isso muda o modelo de negócio inteiro.
2. A vigilância sanitária dentro do veículo
A regra nacional é a RDC 216/2004 da Anvisa (boas práticas para serviços de alimentação), complementada por normas municipais. Num food truck, a vistoria olha principalmente: reservatório de água potável com pia de água corrente para higienização, depósito para a água servida (jogar na boca de lobo é proibido e dá multa), acondicionamento seguro do botijão de GLP, destino do lixo e o curso de boas práticas de manipulação do responsável, que em São Paulo é exigência expressa do decreto, com carga mínima de 8 horas.
3. O veículo no DETRAN
Transformar um baú ou uma van em cozinha é uma modificação de veículo, e a Resolução CONTRAN 916/2022 define o rito: autorização prévia do órgão de trânsito antes da reforma, inspeção de segurança veicular numa ITL credenciada com emissão do CSV (Certificado de Segurança Veicular) e novo CRLV com a modificação registrada. Rodar com o truck adaptado sem isso é infração de trânsito. Por isso vale contratar uma adaptadora estabelecida, com registro no INMETRO: a ficha do Sebrae recomenda exigir a documentação técnica da empresa antes de fechar. E o GLP embarcado tem dono também: quem regula a instalação do gás é o Corpo de Bombeiros do seu estado (em SP, a Instrução Técnica 28, atualizada em 2025), e eventos costumam exigir a conformidade na entrada.
A conta que fecha (ou não)
Vamos aos números de margem do setor. A cartilha de CMV da Abrasel (janeiro de 2026) aponta custo de mercadoria entre 30% e 40% do preço em alimentação; a margem líquida saudável de um food truck fica entre 10% e 18%, segundo o levantamento da Sisfood.
Agora a conta de um evento, que é onde a maioria começa. Tíquete médio de R$ 35 com CMV de 35%: cada pedido deixa cerca de R$ 20,75 de margem de contribuição depois de ingredientes e embalagem. Se a taxa do evento é R$ 1.000 fixos, os primeiros 48 pedidos do dia pagam só a taxa. Some o combustível do gerador (R$ 300 a 600) e são mais 15 a 30 pedidos antes do primeiro real de lucro. Um evento fraco, com 60 vendas, fecha no quase zero; um bom, com 150, deixa R$ 1.500 a 2.000 limpos. É por isso que veterano de food truck escolhe evento como quem escolhe fornecedor: pedindo o público estimado das edições anteriores.
Antes de imprimir o cardápio, feche o preço na nossa calculadora de markup (com a taxa do evento e a do cartão como despesas variáveis) e descubra na calculadora de ponto de equilíbrio quantos pedidos por mês a sua estrutura exige antes do lucro. As duas contas juntas respondem a pergunta que importa: esse evento vale a pena?
Erros que mais quebram food trucks
- Comprar o truck antes de garantir onde vai estacionar. O TPU tem edital, fila e vagas limitadas. Truck parado na garagem é o aluguel mais caro que existe;
- Aceitar qualquer evento. Taxa fixa de R$ 1.000 num evento de público fraco significa trabalhar o dia inteiro para pagar o organizador. Peça números das edições anteriores;
- Cardápio de restaurante em cozinha de 6 metros. Truck bom opera com pouquíssimos itens, executados rápido. Cada produto a mais é estoque, espaço e fila;
- Esquecer a regularização do veículo. Adaptação sem CSV e novo CRLV é infração e trava na fiscalização de qualquer evento grande;
- Subestimar a água. Reservatório pequeno demais acaba no meio do serviço, e a vigilância olha exatamente isso: água potável, pia e depósito de água servida;
- Ignorar a sazonalidade. Chuva cancela evento e derruba o mês. Sem reserva de caixa para semanas fracas, a operação morre no primeiro inverno;
- Precificar copiando o vizinho de praça. A estrutura de custo dele (truck quitado, evento com outra taxa) não é a sua. Faça a sua conta.
Passo a passo do zero ao primeiro evento
- Defina o modelo de operação (eventos, ponto fixo com TPU ou food park) e valide na prefeitura o que existe de vaga e edital na sua cidade;
- Escolha um cardápio curto e teste as receitas com ficha técnica e gramatura;
- Feche preço e margem com markup e ponto de equilíbrio calculados com os seus números;
- Escolha o formato do veículo pelo bolso: trailer usado para validar a ideia, motorizado para escalar;
- Abra o CNPJ: MEI como vendedor ambulante de produtos alimentícios (CNAE 5612-1/00), ou ME se o plano já nasce grande;
- Contrate uma adaptadora com registro no INMETRO e siga o rito do DETRAN (autorização prévia, CSV, novo CRLV);
- Prepare o veículo para a vistoria sanitária: água potável, água servida, GLP seguro, curso de boas práticas;
- Solicite o TPU ou credencie-se nos eventos e food parks da região;
- Monte o kit de evento: gerador, extintores em dia, maquininha, embalagem para levar;
- Acompanhe CMV e margem por evento, e corte da agenda o que não paga a taxa.
Perguntas rápidas
Food truck pode ser MEI?
Pode. O CNAE 5612-1/00 (serviços ambulantes de alimentação) está na lista oficial do MEI, pela ocupação de vendedor ambulante de produtos alimentícios. O DAS de 2026 é R$ 82,05 por mês, com teto de R$ 81 mil de faturamento por ano.
Qual o CNAE de food truck?
5612-1/00, serviços ambulantes de alimentação. O descritor oficial do IBGE cita trailers e veículos de alimentação rápida. Para delivery, soma-se o 5620-1/04 como atividade secundária.
Quanto custa montar um food truck?
De R$ 15 mil a R$ 45 mil num trailer usado, R$ 60 mil a R$ 140 mil num veículo motorizado adaptado, e cerca de R$ 150 mil no cenário com veículo novo estimado pelo Sebrae. Reserve ainda capital de giro para dois ou três meses de operação.
Food truck precisa de alvará?
Precisa de permissão municipal para vender em via pública (em São Paulo, o TPU da lei de comida de rua), licença da vigilância sanitária e, sendo veículo adaptado, da regularização no DETRAN com CSV. Em evento privado, a autorização é do organizador, mas a sanitária e a do veículo continuam valendo.
Quanto lucra um food truck?
A margem líquida típica fica entre 10% e 18%. Em faturamento, o levantamento do setor mostra R$ 15 mil a R$ 30 mil mensais para quem vive de eventos e R$ 30 mil a R$ 50 mil com ponto fixo, com lucro líquido de R$ 3 mil a R$ 12 mil conforme o modelo.
Food truck é um negócio de logística disfarçado de cozinha: quem domina agenda, ponto e regularização vende; quem só sabe cozinhar fica bonito na foto. Comece pela conta e pelo edital, não pelo adesivo do truck. E se a sua praia for massa e forno, dá uma olhada também no nosso guia completo de como abrir uma pizzaria. 💙
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